PT e a “Síndrome de Luxemburgo”

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Luxemburgo é a síntese do PT e vice-versa (Foto: CAIO GUATELLI/Folhapress)

Ninguém questiona a capacidade de Vanderlei Luxemburgo como treinador de futebol. Foi campeão brasileiro com Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro e Santos, além de grande trabalho no modesto Bragantino no início dos anos 90. Em 2005 chegou a treinar Zidane, Ronaldo Fenômeno e David Beckham no poderoso Real Madrid. Porém, de lá para cá, o treinador vêm colecionando fracassos e há quatorze anos não conquista um título de relevância. Chegou a fracassar até mesmo na segunda divisão do campeonato chinês, sendo demitido antes do fim do contrato com o Tianjin Quanjian. Em seu retorno ao Brasil chegou a dar entrevista em que questionava a credibilidade do campeonato de futebol da China e atribuindo a fatores externos o fracasso de sua passagem. Esta declaração explica muito bem o porquê do treinador hoje não ser cogitado para treinar nenhum grande clube no Brasil.

A questão é simples: Como contratar alguém que, mesmo tendo falhado nos últimos anos, é incapaz de reconhecer seus equívocos, culpando a todos menos a si mesmo? A verdade é que não se aprende com os erros se você não os enxerga como erros.

A conexão com o PT então fica bastante clara. Luxemburgo, que por acaso é petista, sintetiza hoje a situação do Partido dos Trabalhadores. Situação escancarada em discurso do Senador Cid Gomes em evento da candidatura Haddad em Fortaleza neste dia 15 de outubro.

No discurso, Cid disse que era preciso o PT fazer um mea-culpa, um exercício de humildade e reconhecer seus erros. A militância presente não reagiu bem e, junto com as vaias, iniciou o coro “olê olê olê olá, Lula Lula”, ao passo que Cid Gomes se descontrolou e rebateu: -“ Lula o que, babaca? Lula está preso!”¹.  Apesar da agressividade no discurso que passa pelo temperamento dos irmãos Gomes (que explicita pelo menos a autenticidade dos dois), a leitura dos fatos está correta. Mas parece que não para o próprio partido dos trabalhadores.

Quando Dilma Rousseff deixou o país em 2016 por conta do golpe parlamentar liderado por Eduardo Cunha e Michel Temer, a situação econômica do país já estava difícil. Em 2015, por exemplo, o país fechou o ano com recessão de 3,8% e inflação e juros em alta, além de desemprego que já ultrapassava os 10%². Tudo isso tendo no Ministério da Fazenda o ex-diretor do Bradesco Joaquim Levy.

Mas o PT diz que o país só piorou a partir do governo Temer, que inclusive foi colocado na linha de sucessão pelo ex-presidente Lula. E quando alguém questiona que os números do segundo governo já eram alarmantes, o PT rebate com a narrativa de que Dilma foi boicotada em todo seu segundo governo, o que não é totalmente mentira, mas não é esta a percepção do brasileiro que tem sido bombardeado com uma mídia claramente anti-PT.

Em relação à Lava Jato e outros casos de corrupção envolvendo o partido, o PT diz sofrer uma perseguição discriminatória por parte da justiça brasileira. E publicamente lideranças como Gleisi Hoffmann (presidente do partido), José Dirceu, Lindbergh Farias e Jandira Feghali (do PC do B, fiel escudeiro do PT) defendem que Haddad, caso eleito, indulte Lula.

Como vimos no artigo anterior, a Lava Jato tem inúmeros problemas e está longe de se apresentar imparcial ou ter credibilidade. Mas em uma eleição, após uma campanha midiática para colar a corrupção a apenas um partido, alguém teria chances de vencer colocando-se como vítima de tudo e sem reconhecer qualquer erro durante os 14 anos em que ficou no poder?

Voltamos então à “síndrome de Luxemburgo”. Nenhum clube o quer não necessariamente por seus fracassos recentes, mas sim porque o mesmo não faz qualquer mea-culpa, não tem humildade e aponta o dedo a todos como se fosse arauto da moralidade. Novamente, se não tem a capacidade de reconhecer seus próprios erros, como ganhar uma nova chance? Será que aprendeu alguma coisa?

Por mais que o PT acredite na narrativa apresentada até aqui (e que boa parte não deixa de ser verdade), não é essa a percepção da população brasileira que tem, como grande fonte de informação, o Jornal Nacional. E sabendo disso, para se ganhar uma eleição, é preciso ter humildade sim. Reconhecer publicamente os erros e diminuir o discurso de vitimização que incomoda tanto parte dos eleitores.

Há dentro do partido lideranças que reconhecem os erros, como o próprio Fernando Haddad e o ex-governador da Bahia Jacques Wagner. Mas são vozes isoladas dentro de um partido que parece, depois de tanto repetir uma narrativa, incapaz de ter uma observação um pouco mais crítica em relação à sua própria atuação no poder.

Talvez o PT não vá perder “feio” como profetizou Cid Gomes na noite desta segunda-feira, mas a derrota parece sim eminente, e não adianta agora tentar modificar o programa de governo, como o partido tem feito em esforço de sinalizar para o centro. Segundo turno não é uma nova eleição como muitos “especialistas” insistem em apregoar. E na memória do brasileiro está a imagem de Haddad visitando Lula toda semana para pegar conselhos e da presidente do partido falando em indulto justamente no ápice do antipetismo. A oportunidade de redenção poderá vir ano que vem, com o partido possivelmente retomando ao que faz de melhor neste país: oposição. O reerguimento do partido passa por aí. Mas não se pode dispensar a humildade, se não  mais dez anos passarão e o PT não voltará ao governo, assim como há anos Luxemburgo, grande técnico pentacampeão brasileiro, não é contratado por ninguém.

 

1 https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/15/cid-gomes-irmao-ciro-pt-haddad-perder-eleicao.htm

2 https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/05/04/64-meses-de-governo-Dilma-como-evolu%C3%ADram-os-indicadores-econ%C3%B4micos-e-sociais

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