No Brasil, o racismo compensa

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William Waack fez piada racista, mas se considera “vítima” (Reprodução: Rede Globo)

Por Lucas A. Guedes

    Esta semana o jornalista William Waack concedeu entrevista para o também jornalista Marcelo Bonfá em que afirmou (não pela primeira vez) que o comentário que motivou seu desligamento da Rede Globo foi apenas uma “piada de boteco”, e revelou mágoa em relação à emissora ao dizer que a TV é um “ninho de cobras”. Pela entrevista fica evidente então que o ex-âncora do Jornal da Globo não só ainda não fez uma autocrítica em relação ao crime cometido como também se coloca como “vítima” da situação.

Segundo a Constituição de 1988, que esta semana completou 30 anos, a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão. Mas de fato este artigo da constituição não é e nunca foi cumprido no país, a não ser em casos considerados de extrema “gravidade”. Em relação a artistas e jornalistas então, a situação é contornada. Waack, que poderia dizer que pelo menos perdeu o emprego pelo racismo flagrante de sua “piada”, logo após o desligamento da Rede Globo começou a assinar coluna no jornal Estado de S. Paulo e recriou o seu “Painel Globonews” na internet, até com patrocínio de uma instituição financeira. Afinal, William pagou pelo seu racismo?

    Outro caso que salta aos olhos é o do apresentador Marcão do Povo, que em 2017 no programa Balanço Geral DF chamou a cantora Ludmilla de “macaca”. Mais tarde tentou justificar que na verdade ele usou o termo “pobre macaca” apenas para destacar que a cantora é de origem humilde e que então não caracterizaria racismo, mas ao assistir o vídeo fica bem claro o uso da vírgula entre “pobre” e “macaca”, mudando assim o sentido e deixando explícito o crime. Após 10 dias a Rede Record anunciou a demissão do apresentador. Para então, na semana seguinte, ele ser contratado pelo SBT e ser “promovido” para um programa em rede nacional na emissora que apresenta até hoje. Detalhe: na mesma semana de sua contratação, o SBT demitiu a única âncora negra de seu departamento de jornalismo, a excelente Joyce Ribeiro (hoje no Jornal da Cultura). Afinal, Marcão pagou pelo seu crime de racismo? Ao que parece, até progrediu na carreira. Saiu de uma afiliada regional da Record para um programa em rede nacional do SBT.

    Não é recente o descaso dos veículos de comunicação com o racismo e outros crimes de preconceito. É famosa a cena de Boris Casoy caçoando de dois garis que desejavam felicidade e prosperidade a todos em época de reveillon. Boris se desculpou e nunca de fato sofreu consequências de sua atitude lastimável. 

    Nestas situações pode-se constatar que essa conivência tem uma base: os diretores destas emissoras e veículos são homens brancos de uma elite desconectada do povo brasileiro. Mais ainda: revela a falta de empatia com grupos dos quais não fazem parte. A contratação de um jornalista que foi flagrado em fala racista e que até hoje não reconhece seu erro é estapafurdia e escracha a quem esses veiculos realmente serve. E obviamente não é aos “pretos”, parafraseando o “grande” William Waack.

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