O emissor preguiçoso, o receptor ignorante e a multiplicação do cliché

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Em comentário profundo e rico em argumentos, Villa chamou Roger Waters de “bobalhão” (Reprodução: Jovem Pan)

Por Lucas A. Guedes

    Não é de hoje que é perceptível o fenômeno do “comentarista de tudo” na imprensa brasileira. Figuras ligadas à uma área de conhecimento (quando ligadas…) são designadas pelos veículos de comunicação para opinarem absolutamente sobre todos os assuntos abordados pelos telejornais diariamente. É algo que por vezes passa despercebido pela maioria porque nós, grande público, não temos o domínio de todas as áreas do conhecimento. Logo, um comentário raso, superficial ou mesmo baseado em um estereótipo pode não ser notado de maneira muita explícita, mas com o passar do tempo a homogeneidade dos comentários em diferentes assuntos passa a chamar atenção.

    Um exemplo é o comentarista da Rádio Jovem Pan de São Paulo, Marco Antônio Villa. Historiador famoso pela publicação de dezenas de livros que abordam desde a história da guerra de Canudos até uma análise sobre o governo de Fernando Collor de Mello. Porém a fama do historiador na rádio se dá mais pelas frases de efeito soltas pelo comentarista diariamente do que propriamente por seu conhecimento da história do Brasil.

    Um dos fatos mais repercutidos na imprensa nos últimos dias foi o show de Roger Waters, fundador e baixista da banda de rock progressivo inglesa Pink Floyd. No telão do show que ocorreu no Allianz Parque dia 9 de outubro em São Paulo, Roger exibiu de maneira crítica nomes ligados ao conservadorismo e ao chamado neofascismo na história recente do mundo. Constavam nomes de lideranças da extrema-direita europeia, como Marine Le Penn, da França, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, Nigel Farage, parlamentar do Reino Unido e aqui, no continente americano, os nomes de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Para quem acompanha a carreira do inglês, este posicionamento era até previsível, mas houve vaias. E no dia seguinte o assunto foi repercutido em diversos veículos de comunicação.

    Nosso historiador Marco Antônio Villa foi questionado pelo âncora do Jornal da Manhã Thiago Uberreich sobre o ocorrido no Allianz Parque. Discretamente, Uberreich chegou a acrescentar que Roger se trata de um grande músico, ao que Villa respondeu que desconhecia seu trabalho e nunca escutou Pink Floyd, para então em seguida emendar a crítica de ser um “absurdo a manifestação em assuntos dos quais o músico não conhece”, ignorando sua própria atividade diária de “comentarista de tudo” neste mesmo jornal. Dois dias depois, após mais um protesto de Waters no segundo show da turnê “Us + Them” no estádio do Palmeiras, Villa o chamou de “bobalhão”, vociferou que o mesmo não tem conhecimento de Brasil para dissertar sobre nossos temas e que Waters “queria aplausos, mas foi vaiado”. Como é bem perceptível, só faltou a Villa parabenizar o público pelas vaias.

As vaias eram confissões vergonhosas de que não conseguem interpretar as letras das músicas de seus próprios ídolos

    A questão é que conhecendo a carreira do músico inglês e escutando minimamente o repertório criado pelo mesmo nas últimas quatro décadas, seria impossível imaginar outro comportamento de Waters que não o que tomou em seus shows em São Paulo. Seria até mesmo incoerente com sua vasta história de embate com a extrema-direita e o conservadorismo. Mas Villa não conhece Roger Waters. Admite, com certo orgulho, que nunca escutou qualquer música do artista. Mas ainda assim se julga apto para opinar sobre o posicionamento político do artista que sempre foi ativo politicamente em todo o mundo. Sem se dar conta, Villa cometeu o mesmo equívoco que apontou no artista inglês.

    Grave também foi a reação de parte do público nos dois shows em que Roger Waters manifestou oposição a Bolsonaro. As vaias eram confissões vergonhosas de que não conseguem interpretar as letras das músicas de seus próprios ídolos. O constrangimento do analfabetismo funcional, porém, só é sentido pelos que têm consciência da falta de compreensão alheia de uma poesia que, convenhamos, nem é tão difícil de entender assim.

    Voltando aos “formadores de opinião”, o caso de Villa (“não sei, nunca ouvi, mas vou criticar”) não é isolado. Vemos no Brasil pessoas que, sem qualquer embasamento ou preparo, se posicionam a respeito dos mais diversos temas em grandes veículos de comunicação como se fossem especialistas de “tudo”. É como se o bacharel em alguma área específica valesse para todas e chancelassem o então formador de opinião a dissertar sobre até mesmo o que não sabe e desconhece profundamente.

    Outro exemplo ainda dentro da rádio Jovem Pan pode ser citado também, como na tragédia do incêndio do Museu Nacional, ocorrida no dia 2 de setembro. Opinando sobre o museu, a comentarista de política Vera Magalhães, nascida no Rio, citou a importância de uma autocrítica em relação ao descaso do brasileiro com a cultura nacional, chegando a citar a si mesma numa confissão no mínimo embaraçosa: Visitou o museu quando criança com o avô, mas nunca fez o mesmo com os filhos, que obviamente já conhecem a Disneylândia. Por mais que a autocrítica seja algo louvável em tempos de egocentrismo e vaidade exacerbados, será que a comentarista teria realmente gabarito para comentar tal questão, sendo ela um claro exemplo do desprezo da elite brasileira com a cultura nacional?

    É óbvio que a liberdade de expressão e opinião deve ser zelada, não é disso que se trata este texto. É sobre se posicionar sobre tudo de maneira superficial e, consequentemente, desinformando. A responsabilidade do comentarista falando aos milhões na rádio ou TV não é pequena, visto que, como vimos anteriormente, não prezamos muito pela leitura e interpretação de texto. Assim o emissor ganha um peso ainda maior em mentes pouco críticas e treinadas. É preciso ter responsabilidade e respeito com os assuntos tratados. Se não há conhecimento mínimo do assunto, a abordagem acaba sendo rasa e superficial, desaguando em estereótipos fortemente ligados à ignorância sobre temas dos mais variados.

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