A imprensa alternativa e a panfletagem petista

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Gleisi Hoffmann e Juca kfouri no programa Entre Vistas: jornalismo chapa-branca (Reprodução: YouTube)

Por Lucas A. Guedes

Há certo tempo acompanho a chamada mídia alternativa mais de perto, já que a grande imprensa deixou de disfarçar e passou a expor sua militância anti-PT sem o menor pudor. Porém, acompanhando o trabalho do que muitos chamam de “jornalismo independente”, fica bastante claro que essa imprensa tem lado, e não é simplesmente o da esquerda, e sim do Partido dos Trabalhadores. As evidências saltaram aos olhos nestas eleições graças as reações pós-derrota do candidato Fernando Haddad.

Os sinais mais claros desta nítida panfletagem se deram em torno das reações desta imprensa frente ao posicionamento no segundo turno do candidato do PDT Ciro Gomes. Sem o menor constrangimento, assim como a PIG*, esta mídia passou a atacar sem cerimônias o ex-governador do Ceará, quase que o responsabilizando pela derrota do PT no segundo turno, quando todos com um mínimo de razoabilidade sabiam que o segundo turno estava resolvido graças ao que Ciro tanto alertou: o antipetismo.

Fato é que Ciro Gomes decidiu não apoiar publicamente o candidato do PT também como uma reação ao trabalho feito pelo PT para isolá-lo no primeiro turno, sendo Lula o articulador principal para que o PR e o PSB não apoiassem o presidenciável do PDT. À esta altura, as pesquisas já revelavam o poder da rejeição ao ex-presidente, mas o partido fechou os olhos ao problema. De maneira ingênua, acreditaram que entre Lula e Haddad haveria somente a transferência de votos, ignorando que a rejeição também seria repassada, e segundo turno ganha quem tem menos rejeição.

Analisando este fato e ainda mais a campanha do PT no primeiro turno (Lula é Haddad. Haddad é Lula.), fica claro que a responsabilidade pela vitória da extrema-direita no Brasil se deve a relutância do PT em não lançar uma candidatura própria. Mas a leitura das mídias alternativas isenta o ex-presidente e a presidente do PT Gleisi Hoffmann, que durante a eleição e no auge da rejeição ao PT concedia entrevistas em que dizia que Haddad deveria indultar Lula. Porém, para a mídia alternativa uma simples falta de posicionamento explícito de Ciro no segundo turno foi mais determinante.

Nesta terça-feira a presidente do Partido dos Trabalhadores foi convidada do programa “Entre Vistas”, da TVT, programa patrocinado pela CUT. Em certo ponto, a entrevista chapa branca chegou ao seu auge: O apresentador Juca Kfouri questionou Gleisi sobre o não posicionamento de Ciro Gomes, embutindo na pergunta a tese de que Ciro é um machista. Apesar da relutância da presidente do PT em afirmar tal coisa, Juca insistiu e conseguiu arrancar um “certamente foi isso também”. Esta insistência de Juca coincide com texto publicado pelo mesmo em seu blog em que o autor Mario Rui Feliciani, de maneira irônica chama Ciro Gomes de “homem demais” e traça um paralelo com o relato de Dráuzio Varela sobre a ausência dos homens em situações de doenças terminais ou carceragem de um familiar

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Ataque a Ciro pelo não ao PT (Reprodução: Internet)

Já o jornalista Joaquim de Carvalho, do Diário do Centro do Mundo, foi mais assertivo contra Ciro e chamou de “vexatório” o fato do ex-governador não ter apoiado explicitamente Haddad no segundo turno. Fica claro que para o jornalista não havia opção para Ciro a não ser apoiar o PT. Será?

Na TV 247, também no YouTube, Leonardo Attuch criticou não somente Ciro Gomes como também a fala de Cid Gomes em evento da candidatura Haddad em que o senador eleito pelo Ceará disse que era preciso o PT fazer um “mea culpa”. Para Leonardo, as críticas ao PT foram “absurdas” e afirmou que os irmãos Gomes não estão a altura dos problemas brasileiros.

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Para Leonardo Attuch, o não apoio de Ciro a Haddad é “imperdoável” (Reprodução: YouTube)

Já no programa da TVT “Papo com Trajano” do dia 07 de novembro, o jornalista José Trajano leu uma notícia sobre a reunião entre Ciro Gomes e Marina Silva em Brasília em tom bastante irônico para depois emendar em crítica ao PDT e sua traição à memória de Brizola e Darcy Ribeiro. As críticas a parlamentares e governadores do partido são corretas, mas será que Trajano lembra-se que antes de morrer Leonel Brizola fez duras críticas ao governo Lula?

Todo esse vendaval de críticas ao Ciro Gomes esbarram num fato que eles não destacam: Haddad venceu o segundo turno no Ceará com mais de 70% dos votos e vitória em todas as cidades do Estado. Era preciso mesmo Ciro apoiar explicitamente Haddad? Os números mostram que não.¹

A questão é que Ciro quer distância do PT não só pelo que o partido fez para desmontar sua campanha no primeiro turno, mas também pelo antipetismo que ele sabe que não cessará nas próximas eleições. Então só há uma alternativa para que alguém derrote Bolsonaro em 2022: Distanciar-se do PT, já que certamente o partido terá candidatura própria (como sempre o teve), e oferecer-se como terceira via, como de fato ele o fez neste segundo turno, deixando claro que não tem compromisso com nenhum dos lados que avançaram.

Esta imprensa “alternativa” já tem um compromisso: desconstruir qualquer outra via de esquerda que se apresente como alternativa ao PT. Para estes “jornalistas” e comentaristas a hegemonia da esquerda pelo PT é mais do que correta e quem não estiver ao lado do ex-presidente deve ser jogado para escanteio. O compromisso deles não é com o Brasil e nem com o Trabalhismo ou a esquerda. O compromisso desta mídia é com o PT.

1 https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/10/29/haddad-ganha-em-todas-as-cidades-vencidas-por-ciro-gomes-no-1o-turno.ghtml
*PIG é um termo criado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim que significa “Partido da Imprensa Golpista”.

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PT e a “Síndrome de Luxemburgo”

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Luxemburgo é a síntese do PT e vice-versa (Foto: CAIO GUATELLI/Folhapress)

Ninguém questiona a capacidade de Vanderlei Luxemburgo como treinador de futebol. Foi campeão brasileiro com Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro e Santos, além de grande trabalho no modesto Bragantino no início dos anos 90. Em 2005 chegou a treinar Zidane, Ronaldo Fenômeno e David Beckham no poderoso Real Madrid. Porém, de lá para cá, o treinador vêm colecionando fracassos e há quatorze anos não conquista um título de relevância. Chegou a fracassar até mesmo na segunda divisão do campeonato chinês, sendo demitido antes do fim do contrato com o Tianjin Quanjian. Em seu retorno ao Brasil chegou a dar entrevista em que questionava a credibilidade do campeonato de futebol da China e atribuindo a fatores externos o fracasso de sua passagem. Esta declaração explica muito bem o porquê do treinador hoje não ser cogitado para treinar nenhum grande clube no Brasil.

A questão é simples: Como contratar alguém que, mesmo tendo falhado nos últimos anos, é incapaz de reconhecer seus equívocos, culpando a todos menos a si mesmo? A verdade é que não se aprende com os erros se você não os enxerga como erros.

A conexão com o PT então fica bastante clara. Luxemburgo, que por acaso é petista, sintetiza hoje a situação do Partido dos Trabalhadores. Situação escancarada em discurso do Senador Cid Gomes em evento da candidatura Haddad em Fortaleza neste dia 15 de outubro.

No discurso, Cid disse que era preciso o PT fazer um mea-culpa, um exercício de humildade e reconhecer seus erros. A militância presente não reagiu bem e, junto com as vaias, iniciou o coro “olê olê olê olá, Lula Lula”, ao passo que Cid Gomes se descontrolou e rebateu: -“ Lula o que, babaca? Lula está preso!”¹.  Apesar da agressividade no discurso que passa pelo temperamento dos irmãos Gomes (que explicita pelo menos a autenticidade dos dois), a leitura dos fatos está correta. Mas parece que não para o próprio partido dos trabalhadores.

Quando Dilma Rousseff deixou o país em 2016 por conta do golpe parlamentar liderado por Eduardo Cunha e Michel Temer, a situação econômica do país já estava difícil. Em 2015, por exemplo, o país fechou o ano com recessão de 3,8% e inflação e juros em alta, além de desemprego que já ultrapassava os 10%². Tudo isso tendo no Ministério da Fazenda o ex-diretor do Bradesco Joaquim Levy.

Mas o PT diz que o país só piorou a partir do governo Temer, que inclusive foi colocado na linha de sucessão pelo ex-presidente Lula. E quando alguém questiona que os números do segundo governo já eram alarmantes, o PT rebate com a narrativa de que Dilma foi boicotada em todo seu segundo governo, o que não é totalmente mentira, mas não é esta a percepção do brasileiro que tem sido bombardeado com uma mídia claramente anti-PT.

Em relação à Lava Jato e outros casos de corrupção envolvendo o partido, o PT diz sofrer uma perseguição discriminatória por parte da justiça brasileira. E publicamente lideranças como Gleisi Hoffmann (presidente do partido), José Dirceu, Lindbergh Farias e Jandira Feghali (do PC do B, fiel escudeiro do PT) defendem que Haddad, caso eleito, indulte Lula.

Como vimos no artigo anterior, a Lava Jato tem inúmeros problemas e está longe de se apresentar imparcial ou ter credibilidade. Mas em uma eleição, após uma campanha midiática para colar a corrupção a apenas um partido, alguém teria chances de vencer colocando-se como vítima de tudo e sem reconhecer qualquer erro durante os 14 anos em que ficou no poder?

Voltamos então à “síndrome de Luxemburgo”. Nenhum clube o quer não necessariamente por seus fracassos recentes, mas sim porque o mesmo não faz qualquer mea-culpa, não tem humildade e aponta o dedo a todos como se fosse arauto da moralidade. Novamente, se não tem a capacidade de reconhecer seus próprios erros, como ganhar uma nova chance? Será que aprendeu alguma coisa?

Por mais que o PT acredite na narrativa apresentada até aqui (e que boa parte não deixa de ser verdade), não é essa a percepção da população brasileira que tem, como grande fonte de informação, o Jornal Nacional. E sabendo disso, para se ganhar uma eleição, é preciso ter humildade sim. Reconhecer publicamente os erros e diminuir o discurso de vitimização que incomoda tanto parte dos eleitores.

Há dentro do partido lideranças que reconhecem os erros, como o próprio Fernando Haddad e o ex-governador da Bahia Jacques Wagner. Mas são vozes isoladas dentro de um partido que parece, depois de tanto repetir uma narrativa, incapaz de ter uma observação um pouco mais crítica em relação à sua própria atuação no poder.

Talvez o PT não vá perder “feio” como profetizou Cid Gomes na noite desta segunda-feira, mas a derrota parece sim eminente, e não adianta agora tentar modificar o programa de governo, como o partido tem feito em esforço de sinalizar para o centro. Segundo turno não é uma nova eleição como muitos “especialistas” insistem em apregoar. E na memória do brasileiro está a imagem de Haddad visitando Lula toda semana para pegar conselhos e da presidente do partido falando em indulto justamente no ápice do antipetismo. A oportunidade de redenção poderá vir ano que vem, com o partido possivelmente retomando ao que faz de melhor neste país: oposição. O reerguimento do partido passa por aí. Mas não se pode dispensar a humildade, se não  mais dez anos passarão e o PT não voltará ao governo, assim como há anos Luxemburgo, grande técnico pentacampeão brasileiro, não é contratado por ninguém.

 

1 https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/15/cid-gomes-irmao-ciro-pt-haddad-perder-eleicao.htm

2 https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/05/04/64-meses-de-governo-Dilma-como-evolu%C3%ADram-os-indicadores-econ%C3%B4micos-e-sociais