Os filhotes da Lava Jato

 

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A mitificação do juiz Sérgio Moro em manifestação pró-Lava Jato (Imagem: Thoe Marques / Frame Photo)

Por Lucas A. Guedes

A Operação Lava Jato, iniciada em 17 de março de 2014 e ainda em andamento escancarou a criminosa relação entre as maiores empreiteiras do Brasil com membros dos governos federal e estaduais, além dos desvios na Petrobras para inclusive o financiamento de campanhas das últimas eleições. Não se questiona este trabalho da polícia federal em conjunto com o Ministério Público e nem sua veracidade. Porém, a credibilidade da operação foi se arranhando ante parte da população devido a indícios de que motivações políticas estivessem por detrás das investigações. Talvez o exemplo mais explícito disto tenha sido o vazamento de grampo ilegal envolvendo a então presidente Dilma Rousseff com o ex-presidente Lula. O vazamento que foi direto para o Jornal Nacional e gerou o impedimento da nomeação de Lula para o ministério da Casa-civil. Mas apesar da atuação política, o juiz Sério Moro levou apenas uma advertência do STF, enquanto que as consequências do vazamento influenciaram diretamente no processo de impeachment de Dilma.

Outro sinal importante da atuação política e midiática da operação foi o abuso da condução coercitiva, executada até mesmo contra o ex-presidente Lula, quando o mesmo não oferecia a menor resistência em se apresentar para depor. Antes mesmo da polícia federal chegar até o prédio do petista em São Bernardo do Campo a imprensa já se encontrava no local. O abuso dessas conduções foi tanto que o próprio STF decidiu intervir para evitar o seu abuso. Mas o estrago midiático, obviamente, já estava feito.

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol se tornaram rostos tão conhecidos quanto os de astros de novelas. Entrevistas para os grandes jornais, revistas, programas de TV e presença garantida em premiações do tipo “brasileiros do ano” se multiplicaram. Agora são celebridades e tratados como super-heróis de nossa democracia.

Mas a consequência mais profunda da Lava Jato, por incrível que pareça, não foi no impeachment de Dilma Rousseff, mas sim nestas eleições ocorridas no dia 7 de outubro.

Com a publicidade de que toda classe política estava no mesmo saco e delações salpicando a todo o momento sendo jogadas ao publico antes mesmo de qualquer apuração, abriu-se brecha para a chamada “nova política”, que poderia ter em sua logo a imagem de Jânio Quadros e sua vassourinha.

A renovação política não é uma ideia abominável. Pelo contrário. É saudável à democracia a renovação de quadros e alternância de poder. Porém o que vimos no dia 7 de outubro foi a ascensão de um conservadorismo metido à neoliberal que, de “novo” mesmo só o nome.

No Rio de Janeiro, estado falido e com lideranças políticas presas ou investigadas por envolvimento com corrupção, vimos a ascensão meteórica de Wilson Witzel, ex-juiz federal filiado ao Partido Social Cristão.

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Wilson Witzel dividindo palanque com o deputado eleito Rodrigo Marim, que partiu ao meio placa em homenagem à Marielle Franco: Símbolos da “renovação” na política. (Foto: Reprodução)

Witzel estava no trio elétrico em que o candidato do PSL Rodrigo Amorim quebrou de maneira bastante simbólica uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, do PSOL, assassinada em março deste ano com quatro tiros na cabeça em crime ainda não solucionado pelas forças policiais. Já Rodrigo Amorim recebeu 140 mil votos e foi eleito deputado estadual.

Voltando ao candidato ao governo do PSC, o programa de governo de Witzel não propõe absolutamente nada de novo. Criação de um gabinete de segurança subordinado ao governador, investimento em aparato policial e o famigerado “combate à corrupção”.

Mas em vídeo publicado pelo portal do jornal O Globo no último dia 13, Witzel explica a uma plateia de advogados e juízes sua “engenharia” para não perder a gratificação de acúmulo quando em licença e com juiz substituto em exercício do cargo. O vídeo se junta à outra informação curiosa: o juiz recebia auxílio-moradia mesmo tendo residência fixa no Rio de Janeiro.

Questionado sobre este último, Witzel declarou que o auxílio “está na lei” e que cabe ao Congresso votar sua extinção ou não. Curioso é que nomes da chamada velha política dispensaram diversas aposentadorias e benefícios aos quais teriam direito, seja por terem sido governadores, prefeitos, deputados ou senadores. É o caso de Fernando Haddad e Ciro Gomes, só para citar alguns exemplos. Fica evidenciado então que Witzel e todo o discurso da ética e combate aos privilégios entra em atrito com a prática do juiz. É o famoso “moralista de goela”.

Ainda dentro das aberrações geradas graças â negação da política consequente da espetacularização da Lava Jato é o candidato ao governo de Minas Gerais Romeu Zema, do partido “NOVO”, empresário dono do Grupo Zema, que conta com 430 lojas em todo estado.

Em sua propaganda para a TV, Zema se coloca como um cidadão revoltado com tanta roubalheira e incompetência e se apresenta como o gestor que Minas precisa. Embasa isto em sua experiência na iniciativa privada e exibe com orgulho que emprega cerca de 5 mil pessoas em sua rede de lojas espalhadas pelo estado. Romeu herdou o Grupo Zema de seu avô, Domingos Zema, mas acredita na meritocracia. Também defende o fim da lei que obriga as empresas a preencherem no quadro de funcionários cotas para deficientes. Segundo Zema, os empresários têm grande dificuldade em preencher essas vagas. Além disso, propôs a privatização da Companhia Energética de Minas Gerais, a CEMIG. Novamente, nada de “novo”.

Em São Paulo, estado onde a revolta anti-establishment e anti-PT era mais visível, os candidatos mais votados explicitam a guinada à extrema-direita: Foram eleitos Eduardo Bolsonaro, Kim Kataguiri, Alexandre Frota, Arthur Mamãe Falei e Janaína Paschoal, uma das autoras do processo de impeachment de 2016. Outra candidata que exemplifica bem a “qualidade” da renovação é Joyce Hasselman, ex-colunista da revista Veja e que foi condenada em 2015 por plagiar 23 jornalistas em mais de 60 reportagens. Foi a primeira condenação de uma jornalista por plágio no estado do Paraná.

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Joyce Hasselman: Condenada por plágio em 2015, eleita deputada federal com 1 milhão de votos em São Paulo. (Foto: Reprodução/Veja)

Muitos acreditam que o objetivo político por trás da lava jato era beneficiar o PSDB, já que suspeitas sobre desvios na Petrobras desde o governo FHC não foram devidamente explicadas e basicamente nenhum membro do partido, um dos maiores do país, ter sido condenado por esta operação. Alguns casos, como o de Aécio Neves, chegaram a ser enviados à justiça de primeira instância em Minas Gerais, estado berço político de Aécio e onde o psdbista exercia e ainda exerce grande influência. Foi liberado para concorrer e foi eleito deputado federal.

Mas o tiro da Lava Jato que teria mirado no partido que fez oposição ao PT em seu governo beneficiou outra turma: Os com discurso mais firme e agressivo, sintetizado no enorme crescimento da bancada do PSL, partido de Jair Bolsonaro. A sigla que tinha 8 congressistas, agora terá 46.

Termino o texto com um trecho da entrevista dada pela socióloga italiana Donatella della Porta à revista Veja no fatídico ano de 2016, em que Donatella revela os erros da grande operação Mãos Limpas, realizada na Itália no começo da década de 90 e que produziu, entre outros fenômenos, Silvio Berlusconi. Infelizmente não consegui a íntegra, mas o trecho a seguir é bastante simbólico nas semelhanças entre as duas Operações e suas consequências.

A Operação Mãos Limpas foi um marco no combate à corrupção, mas, segundo a senhora afirma, não transformou a Itália num país melhor. Onde ela falhou?

O grande erro foi acreditar que o Poder Judiciário conseguiria mudar sozinho o corrupto sistema italiano. A chamada “revolução dos juízes” não tinha força para isso. Uma transformação significativa necessitava que uma profunda reforma política fosse feita em paralelo às investigações policiais e às decisões judiciais. E isso não aconteceu.

E por que essa reforma política não ocorreu, mesmo com o enfraquecimento dos partidos tradicionais e o surgimento de novos?

É verdade que os dois principais partidos políticos, o Socialista e a Democracia Cristã, sumiram do mapa, o que pôs fim à chamada Primeira República e deu início à Segunda República. Mas isso foi apenas uma mudança de rótulo. A renovação da classe política não significou uma renovação das práticas. Houve apenas reciclagem dos velhos problemas através de novos partidos.

 

*As informações citadas neste artigo podem ser checadas nos seguintes links:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/04/03/documentos-indicam-grampo-ilegal-e-abusos-de-poder-na-origem-da-lava-jato.htm

http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/03/gilmar-mendes-suspende-nomeacao-de-lula-como-ministro-da-casa-civil.html

https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/cnj-comeca-a-julgar-processo-em-que-moro-e-acusado-de-violar-constituicao-com-audios-de-lula-e-dilma/

https://www.huffpostbrasil.com/2018/06/14/stf-proibe-conducao-coercitiva-de-investigados-para-interrogatorio_a_23459442/

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/10/08/witzel-participou-de-ato-em-que-placa-destruida-de-marielle-foi-exibida.htm

https://istoe.com.br/em-video-witzel-ensina-engenharia-dos-juizes-para-receber-gratificacao/

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2018/10/14/interna_politica,997088/anastasia-critica-zema-por-declaracao-sobre-pessoas-com-deficiencia-a.shtml

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2018/noticia/2018/10/08/veja-os-candidatos-a-deputado-estadual-eleitos-em-sp.ghtml

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2018/noticia/2018/10/08/veja-os-candidatos-a-deputado-federal-eleitos-em-sp.ghtml

http://www.sindijorpr.org.br/noticias/6066/conselho-de-etica-comprova-plagio-praticado-pela-jornalista-joice-hasselmann

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